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    Confira a homenagem da profª Angélica Moriconi à língua portuguesa

    E por falar em língua...eis a nossa “última flor do Lácio, inculta e bela”

    A língua é um poderoso instrumento de comunicação humana. O Homo Sapiens, há milhares de anos, já se comunicava: seja expressando-se por meio de pinturas rupestres, seja comunicando-se por grunhidos – sons ainda não linguísticos. Os homens, desde sempre, sentiram a necessidade de expressar seus sentimentos, desejos, emoções. Por meio da nossa língua, fazemos tanto com tão pouco: com apenas algumas dezenas de fonemas produzimos um número incontável de vocábulos e sentenças ilimitadas!

    Uma língua não é somente um apanhado de palavras e sua organização sintática.

    Uma língua é, na verdade, um recorte cultural. Uma “formatação” da realidade, a maneira como um determinado grupo cultural vê o mundo.

    Sapir e Whorf, dois importantes linguistas europeus, ensinam que cada língua "analisa" de maneira particular a realidade concreta. Dizem que o modo de raciocinar de cada falante relaciona-se diretamente à língua materna. Para eles, as diversas sociedades em que vivem os homens são mundos diferentes e não apenas o mesmo mundo referenciado por vocábulos diversos.

    Outro importante linguista, o dinamarquês Louis Hjelmslev, usa o exemplo do espectro solar para demonstrar que a realidade constitui-se num “continuum” indefinido em que traçamos demarcações de acordo com nosso sistema semântico. Para isso, ele compara vocábulos de cores em dinamarquês e galês, mostrando que o primeiro apresenta quatro vocábulos: gr0n, blaa, graa, brun; enquanto o segundo, somente três: gwyrdd, glas e ilwyd. Isso demonstra que os dinamarqueses teriam uma visão mais aguçada, seriam biologicamente mais completos? Claro que não! Isso somente provaria que cada grupo humano tem uma visão de mundo muito específica que se reflete na língua.

    E a nossa língua? A língua portuguesa, oriunda do latim vulgar, a que Olavo Bilac tão apaixonadamente chama “última flor do Lácio, inculta e bela,” nos possibilita falar de guerra e de paz; falar de amores e dores, construir laços com pessoas tão diferentes, possibilita-nos, inclusive, o próprio pensamento!

    E como não amar a nossa língua portuguesa!

    Seria impossível, sem ela, que o grande Guimarães Rosa escrevesse Grande Sertão, Veredas!
    De que forma ele diria sem ela “Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – o escuro, escuros” ou “Existe é homem humano. Travessia”?

    Sem ela teria sido impossível Machado, com suas ironias finas e seu pessimismo atroz: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura humana o legado de nossa miséria” ou ‘Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis, nada menos”.

    E Camões?? Teria sido possível os Lusíadas?? Como dizer “As armas e os Barões assinalados/Que da Ocidental praia Lusitana”?

    Não, não se diria...

    Também o soneto camoniano “Alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente...”? Quem choraria a amada gentil morta precocemente, numa língua assim tão feminina?

    Essa língua portuguesa é a língua de cidadãos de outros países distantes: Portugal, Angola, Mocambique, Cabo Verde, Guiné Bissau.

    Essa é a língua portuguesa do “Brasil brasileiro, do mulato inzoneiro, desse Brasil lindo e trigueiro, terra de samba e pandeiro”!

    A língua com que nos expressamos de forma tão diversa nesse imenso país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, nesse imenso país tão desigual!

    Artigo escrito pela coordenadora do curso de Letras da Unisa, profª ma. Angélica Lino dos Santos Moriconi.

    Universidade Santo Amaro: 12/06/2020 10:06
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